A resolução eterna

Eu costumava ser boa com as palavras. Era aquela minha vaidade interior, que me acalentava o ânimo quando todas as outras empreitadas pareciam destinadas a falhar. “Ao menos, sei escrever bem.” E sabia. Não dava erros. Passava as mensagens de forma clara. Era capaz de imprimir em frases pensamentos confusos. Fazia umas valsas e harmonias e transformava a prosa numa espécie de balé em cima das folhas em branco à minha frente.

É. Eu costumava ser boa com as palavras. Na altura em que os ecrãs só marcavam números de telefone, eu passava horas a ler. Adorava mergulhar em histórias, perder-me em poesias complicadas, estudar os pensamentos mais mordazes. E até rir-me com os livros aos quadradinhos. Era uma criança sossegada, dizia a minha mãe. Bastava deixar-me à beira de uma pilha de livros que eu esquecia o dia do calendário e submergia em horas e dias inventados.

Depois os caracteres com os quais eu enchia a minha mente deixavam de ter espaço e eu precisava de os verter para algum lado. Nessa altura ia buscar a caneta e o caderno. E escrevia. Debitava tudo o que já não cabia dentro de mim. Pensamentos, inquietações, histórias e memórias, poemas e canções. Anotações. Resmas de papel que muitas vezes acabavam no fundo de algum caixote porque também sempre tive uma relação complexa com a minha arte. Uma espécie de amor ódio, que me fazia querer ser engolida pela terra se alguém me lia. E uma raiva “isto está horrível!” que vetava as criações ao exílio permanente da reciclagem da cozinha.

Mas era boa com as palavras. Sempre soube que sim, mesmo quando não chegavam elogios de lado nenhum. Talvez não tenha deixado de ser. Mas a vida ficou confusa, o mundo tornou-se diferente e o tempo fugiu-me das mãos. Custa-me concentrar-me nas páginas dos livros que leio. Sinto o meu telemóvel constantemente a apitar ao meu lado e a desviar a minha atenção. Não tenho tempo para me sentar e escrever. Alinho ideias e conceitos e fico muda quando os quero concretizar. “Por onde começo?” Não sei. Nem por onde sigo ou acabo. Esqueci-me de como se entrelaçam parágrafos. De como se cosem pensamentos. De como se dá vida às letras.

Acontece vezes demais. E cada vez mais. Listas de assuntos que acabam esquecidas. Memórias que nunca passam ao papel e se esfumam no tempo. Mensagens importantes que ficam presas na garganta dos dedos, impedidas de dar uso à sua voz. Foram os telemóveis, as redes sociais, a vida agitada, o mundo confuso lá fora, a imaginação a desfazer-se num calhau embrutecido e a promessa de um talento a ficar cada dia mais longe da sua concretização.

E hoje aqui. Novamente aqui. A olhar para um cursor que me pergunta se quero mesmo continuar aqui. Numa nova resolução de uma lista feita para a meia-noite.

Tens mesmo alguma coisa a dizer? Alguma coisa a escrever? Ainda cabemos na tua vida? Nós, as palavras, as ideias, os conceitos? Não sei. Eu era boa com as palavras, mas tantas vezes em segredo morro de medo de ter perdido o jeito. Tornei-me num amante desleixado que deixa de trazer flores e se esquece de elogiar. Qual será a terapia de casal? Quero tentar. A cada ano transformo este tentar numa resolução que se esfuma algures em janeiro. Mas quero tentar. Seja a que velocidade for. Em que medida for. Mas quero tentar. Porque eu costumava ser boa com as palavras. E quero ainda continuar a ser.

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