A espuma dos dias do isolamento social

Somos sete cá em casa. Mudarmo-nos juntos foi provavelmente a melhor decisão, tomada lá no início, quando toda a gente se decidiu enclausurar. “Vamos para casa dos teus pais?” A pergunta foi feita pelo meu marido, depois de perceber, ao fim de um dia de creche fechada, que eu ia dar em louca no nosso apartamento. É lindo, mas absurdamente minúsculo para uma quarentena.

Agora somos sete cá em casa. Nesta casa que é efetivamente dos meus pais. Só que eles já não moram aqui. Um dia, as cirscunstâncias da nossa família alteraram-se e, esta casa, na qual vivemos momentos tão especiais, perdeu parte do seu sentido. Tornou-se, desde então, casa de outras famílias, em regime de arrendamento. Estava vazia desde o final do ano passado.

E somos sete agora, nesta casa. Viemos, primeiro, os três. Mãe, pai e bebé. Com roupas e brinquedos, tapetes e candeeiros. Depois trouxemos a minha avó, que não saberia nunca cumprir o conceito de isolamento se estivesse sozinha. Mas ainda havia quartos disponíveis. Por isso, por último, juntou-se a minha mãe, a minha irmã e a Rosa, o braço direito desta família.

Aconteceu tudo muito rápido. Num dia, lançou-se a ideia para o ar e dois ou três depois, ainda o Marcelo andava a pensar se punha ou não este país em estado de emergência, e já estávamos todos aqui instalados. Entretanto passou mais de um mês e nós já passámos por quase todo o tipo de estados de espírito.

A primeira semana foi um misto de euforia e desespero. Euforia por este novo dia a dia, em que tudo é novidade e havia tanto tempo para preencher. Desespero porque consumíamos notícias como quem come amendoins e estava a começar a brutalidade dos números de mortes em Itália. Chegávamos à noite em farrapos.

As semana seguintes esfumaram-nos as emoções. Deixámos de consumir notícias e os números perturbadores, de tão habituais, perderam a capacidade de nos chocar. Eu e o meu marido embrenhámo-nos no trabalho. O resto da casa aprofundou os dotes de culinária. Foram tantas as iguarias que nasceram nesta casa que nos sentíamos prontos para fazer nascer um restaurante no fim disto tudo.

Chegámos também a passar pela fase do desolo. A paciência esgotou-se e acabei a quebrar todas as regras de parentalidade com o meu filho. Perdi a vontade de fazer trabalhos manuais com ele ou de aprender música. Deixei-o com ecrãs, ralhei mais do que devia. Não brinquei tanto quanto ele precisava.

Não é sempre tudo fácil. Mas foi sempre bem melhor do que o que eu antevia. Primeiro, claro, pela casa. A gaiola dourada, como a minha mãe lhe chama, que nos faz querer estar cá dentro, mesmo se não fossemos a tal obrigados. A casa que amanhece com melros no jardim e se esperguiça pelo dia ao sabor do vento, de horizonte a coçar-lhe as traseiras. A casa torna tudo mais fácil.

O afeto faz o resto. Imaginei-nos a discutir hora sim hora não, com as personalidades em choque, como se estivessem numa feira de diversões. Mas não. Convivemos uns com os outros e, na maior parte do tempo, moldamos as nossas diferenças à benção que é podermos estar aqui, todos juntos e ainda ter o privilégio de partilhar beijos e abraços, tendo como melodia de fundo as gargalhadas deliciosas do meu filho.

Também discutimos, claro. E houve negrume dentro de nós, mais escuro do que as nuvens carregadas de chuva que também nos vão visitando com fartura. Perdemos vidas lá fora, enquanto estávamos enclausurados cá dentro. Tivemos desgostos que nos rasgaram as convicções. E todos tememos pela incerteza de um futuro, que continua a não se avizinhar fácil.

Ajudou rezarmos muito em conjunto. Fazermos as refeições sempre juntos. Vermos telenovelas ao serão, como se ainda estivessemos no antigamente. A yoga matinal. O karaoke desafinado. Os passeios pelos jardins. As torradas com manteiga. O cabrito da Páscoa. E sobretudo o António. Sempre o António. Pequenino sol desta quarentena.

Estamos já na terceira renovação do estado de emergência e, pela televisão, o Governo fala-nos de uma luz ao fundo do túnel. Eu já estava mentalmente preparada para ficar por aqui ano adentro, mas a perspetiva de uma vida lá fora – mesmo que envergonhada – faz-me sonhar alto com o regresso ao meu pequeno apartamento, ao abraço do resto da família, à convivência do meu filho com o mundo. Ao ir ver o mar, caramba, que saudades que eu tenho de ouvir as ondas a fustigar alegres o areal das praias.

Não sei se só faltarão poucas semanas para tudo isto ou se a espera vai acabar por se desenrolar em mais uns quantos meses. Sei, pelos sete cá de casa falo, que saíremos disto com um olhar novo sobre este mundo que é o nosso, uma maturidade de alma, magoada mas mais sábia, quase mais bonita. E que para sempre guardaremos em nós a espuma do que aconteceu por estes dias.

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