Querida Greta <3

Vi ontem – meio em choque, meio nauseada – reações absurdas à tua intervenção na Cimeira do Clima da ONU. Adultos com idade para ter juízo a ridicularizarem as tuas palavras, os teus trajeitos, o teu caminho. Opinadores de bancada a porem em causa as tuas motivações, a vasculharem o teu passado, a ofenderem a tua família. As redes sociais podem mesmo ser um esterco, não é?

Quero que saibas que, ainda assim, aqui deste lado somos muitos mais os que estão contigo. Os que admiram o que tens feito pelo nosso planeta e pelo nosso futuro (seguramente muito mais do que o que qualquer um desses haters de sofá alguma vez fará). Somos muitos mais os que reconhecem o teu esforço e se orgulham da tua determinação. Os que te agradecem e se inspiram com o teu exemplo. E, sobretudo – o mais importante, – somos muitos mais os que, graças a ti, estão hoje dispostos a fazer algo para mudar o atual estado das coisas.

Também já tive 16 anos e sei que, nessa idade, é muito fácil sermos permeáveis à pressão da opinião dos outros. É muito fácil que cada comentário maldoso nos atinja duplamente. Por isso, querida Greta, tenta ser forte face à maldade digital e olha para as ruas. As ruas de tantas cidades em tantos países que se enchem, sexta-feira após sexta-feira, com gente de todas as idades, a exigir uma mudança no mundo. Graças a ti, que tiveste a lucidez, maturidade e determinação para um dia, há um ano, fazer isso sozinha sem saber se alguém te iria ouvir. Olha quantos te ouvem hoje.

Por isso, querida Greta, esquece as avestruzes online, que preferem ridicularizar ou mandar abaixo ou focar-se em aspetos que nada têm a ver com nada ou inventar teorias conspiratórias sem sentido. Um dia eles vão perceber que só vão continuar a mandar as suas postas de pescada infelizes por esse futuro fora se o teu plano vier a dar certo. Até lá, todos os outros estarão ao teu lado a tentar garantir que isso aconteça.

O clima e o grande filme de ficção científica da humanidade

Imaginem que vivíamos num filme de ficção científica. Algures no início disto tudo haveria uma grande explosão que marcava o começo da história. Dessa explosão sairiam partículas, átomos e sinergias que se iriam mesclando e harmonizando. Imaginem o quão incrível seria observar esses casamentos de poeira cósmica, a formar galáxias, constelações, estrelas, planetas, meteoritos e cometas. E em cada um destes corpos celestes, a energia astral continuava a pulsar, criando novos elementos: desertos, marés, vulcões. Alguns locais afortunados teriam formas de vida independente. Das espécies que daí surgissem, umas sobrepor-se-iam a outras, todas com o intuito de continuar esta expansão cósmica iniciada na explosão que deu origem a esta história.

Num local qualquer remoto deste vasto oceano astral, um pequeno planeta tinha sido abençoado com múltiplas formas de vida. Tantas que se tornavam incontáveis. No relógio universal, breves minutos bastaram para que uma estirpe destes seres independentes se destacasse das demais. Chamemos-lhe humanos, que cresceram, evoluíram, e se multiplicaram. Visto de fora, era fascinante observar este mar de humanos – a humanidade – que, com uma aparente fragilidade, se tornava mais forte todos os dias, criando novas matérias, novas formas de vidas, novas ligações entre si e o que a rodeava.

O argumentista deste filme de ficção científica tinha pensado numa ideia muito interessante para estes humanos. E se eles, nesta sua evolução, se conseguissem superar a si próprios e se catapultassem para fora do seu pequenino planeta incrível e fossem explorar outros planetas, galáxias e dimensões, encontrando até – quiçá – outros semelhantes e dando pano para mangas para uma carrada de sequelas deste filme de ficção científica, ao melhor estilo super produção Hollywood, a pôr no bolso qualquer Star Wars desta vida?

Por outro lado, pensou o argumentista, isto se calhar já está um bocado visto. O melhor seria fazer aqui uma reviravolta na história e tornar os humanos, no final de contas, numa espécie estúpida que, depois de revelar todo o seu potencial, acabaria afundada na sua própria ganância, destruindo todos os recursos que estavam à sua disposição, o que levaria à sua extinção total.

Caros espetadores aí desse lado, chegámos, neste momento, àquilo que, no jargão da dramaturgia, se chama da provação na jornada do herói. É o maior momento de conflito na história, que será decisivo para garantir a sobrevivência ou não do nosso protagonista, neste caso, da humanidade. Serão os humanos capazes de perceber que têm à sua volta tudo o que precisam para prosperar e se catapultaram por esse universo fora, bastando para isso, usarem e respeitarem os recursos do seu pequeno planeta feliz? Ou afundarão na ignorância do agora, revelando-se, afinal, uma espécie pequenina, digna de um filme de série B, condenada à extinção e a nem sequer entrar nos anais da história deste grande e magnânimo universo?

Meus senhores, a resposta a estas questões – e a revelação do caminho do argumentista – estará nas decisões que os líderes do nosso mundo tomarem na conferência que neste momento está a decorrer em Nova Iorque, na sede da ONU, e pela forma como, a partir de agora, aplicaram medidas para concretizar essas mesmas decisões. Stay tuned.

Abençoada creche!

Segunda-feira entreguei um bebé feliz na creche. Saiu sorridente dos meus braços para os da Patrícia (a auxiliar da sala dele) e nem olhou para trás, quando eu me fui embora. Tem sido assim, desde então. Quando o vou buscar vem a correr para mim, igualmente alegre. Diz adeus a toda a gente enquanto lhe pego ao colo e, por norma, o recado que levo é que “se portou lindamente, brincou muito, dormiu a sesta e comeu tudo”.

Estranhamente, esta rápida e fácil integração tem-me custado um bocadinho mais do que aquele choro normal dos primeiros dias, à chegada à escola. Eu sabia que ele ia chorar na adaptação e mentalmente preparei-me para atravessar essa fase. Talvez por isso, tudo tenha acontecido com a maior tranquilidade, mesmo nos dias em que ele chorou mais. Agora que já está integrado, sinto um certo vazio. Como se tivesse sido dado mais um passo no seu crescimento natural. É cada vez menos meu, cada vez mais do mundo. Faz parte, claro. E ainda bem que é assim. Mas não deixa de me dar um pequeno aperto no estômago.

Sempre soubemos, cá em casa, que a altura ideal para o pôr na creche seria com um ano. Antes disso, parecia-nos muito pequenino. Muito frágil e indefeso. E mais tarde também não queríamos, porque achávamos que lhe ia fazer bem conviver com outros meninos desde cedo. Sobretudo o António, que é uma pequena borboleta social. Adora gente.

Conseguimos manter os planos, recorrendo a alguma ginástica das avós (que sendo avós modernas, têm algumas limitações na sua disponibilidade) e a uma certa flexibilidade laboral que pedimos nos nossos trabalhos. Confesso que foi cansativo gerir tudo. Mais cá para o fim estava louca para que a creche começasse. Até porque coincidiu com todo um pulo no desenvolvimento do bebé, absolutamente incrível mas muito exigente.

A escolha da creche, feita ainda no ano passado, também foi fácil. Tínhamos critérios muito bem definidos. Para mim era essencial que houvesse rua, muita rua. Não queria nada que ele estivesse o dia todo fechado numa sala. Até porque quanto mais ar livre houver, menor fica a propagação de doenças (toda a gente sabe que os infantários são infectários).

Depois queria que fosse uma creche humana, de afetos. Preferencialmente pequenina, onde toda a gente se conhecesse, que se adaptasse à vida familiar de cada bebé e que deixasse os pais fazer parte. Sei que muitas não deixam – ouço falar de verdadeiros regimes militares – e, apesar de eu até compreender as razões, não é o que procuro para nós. Acredito que um percurso escolar não deve nunca deixar os pais fora da equação e que os encarregados de educação podem e devem ter sempre acesso às atividades e ocupações dos filhos.

Talvez seja pelo cumprimento de todas estas exigências – e por a escola dele completar o pleno dos nossos critérios e ainda acrescentar outros igualmente fantásticos – que temos um bebé feliz todas as manhãs a chegar à escola. Posso dizer, portanto, que a adaptação – que foi feita respeitando o nosso ritmo – foi mission accomplished. Apesar de eu vir com um nó no estômago e passe o dia com saudades dele, o que eu quero mesmo, mesmo mesmo, é que o António seja um bebé feliz.

(A foto não é na creche. É num sítio ainda mais feliz: com as galinhas da minha avó)

O verão das nossas vidas

Este foi o verão das nossas vidas. Foi o verão dos passeios a cavalo e dos churrascos cheios de crianças. Foi o verão dos jantares enrolados em mantas e das caminhadas no meio de selvas de algas à beira-mar. Foi o verão dos almoços de conquilhas e dos jantares na Noélia. Foi o verão das conversas noite fora e dos planos entre mergulhos. Foi o verão das gargalhadas de bebé que enchiam a praia e dos primeiros passos na areia. Foi o verão de Ayamonte, de Vilamoura e Tavira, mas sempre sempre de Monte Gordo. Foi o verão das avós e dos primos e também dos pés de ligadura. Foi o verão da música pimba desafinada e das filas à porta da discoteca. Foi o verão das manhãs passadas ao computador e dos finais de tarde a jogar às cartas. Foi o verão dos baldes, dos passarinhos e dos cães da rua. Foi o verão do mar de quinze graus e do mar de vinte cinco. Foi o verão das fofocas de Instagram e das tranças no cabelo, feitas pelas mãos mágicas da minha mãe. Foi o verão das séries do Netflix e dos quase passeios de barco. Foi o verão dos vestidos trocados e dos biquínis comprados nas bancas da feita. Foi o verão dos presentes à hora do almoço e das horas da sesta trocadas. Foi o verão do karaoke lamechas e das máquinas de café que se iam deitar à meia-noite. Foi um verão que passámos a admirar a arquitetura árabe dos edifícios e a tentar repetir dias perfeitos. Um verão de ginástica no areal e de conversas no paredão. Um verão de poses para fotografias e de explorações na mata frustradas. Um verão a aprender a jogar ténis e a ir visitar Sevilha, pela milésima vez. Um verão com sushi, chinês, tapas, pizzas e risottos, mas sobretudo um verão de muito peixe grelhado e sardinhas assadas. Um verão de cerveja sem álcool, mas também de shots de tequilla. Um verão de castelos na areia e de flamingos flutuantes. Um verão em que o meu bebé se esqueceu onde era a casa dele, achou que era índio e ia viver para sempre junto ao mar, sujo de areia – e era tão feliz! Este foi o verão das nossas vidas. O verão que me alenta o inverno e que quero repetir ano após ano.

Estórias sobre História

(Ainda no rescaldo das eleições, sobre a abstenção e por causa das liberdades conquistadas pelos nossos avós, que hoje tomamos como adquiridas. Texto originalmente publicado a 7 de maio de 2015, no blog – já extinto – “Lá Fora Cá Dentro”) 

Terminei esta semana a trilogia “O Século” do Ken Follett. Chorei baba e ranho ao longo das últimas páginas.

Para terem uma noção da coisa, cada uma das três obras desta coleção tem perto de mil páginas. Li um destes livros por ano, ao longo dos últimos três anos – intercalados por outras leituras. As minhas lágrimas não se deveram à saudade antecipada de todos os personagens da trama. Ou pelo menos, não foi só por isso que chorei.

Eu explico melhor. A trilogia “O Século” dedica-se a um período incrível da história da humanidade: o século passado. O século das guerras mais mortíferas, das inovações mais impressionantes, o século da descoberta, do erro, do perdão, da diplomacia, dos direitos humanos, o século que nos mudou, que nos tornou mais conscientes, mais unidos, mais preparados mas também mais frágeis e dependentes uns dos outros.

O primeiro livro fala da I Grande Guerra, passada nas trincheiras, quando o mundo perdeu a inocência. O segundo, claro, retrata a II Guerra Mundial, o horror do Holocausto e o nascimento das bombas atómicas. O terceiro vai para a Guerra Fria e o braço de ferro entre o comunismo e o capitalismo, os hippies e o Muro, o Vietname e Watergate, Luther King e Gorbachev.

É impressionante a mestria de Follett a descrever os eventos mais importantes deste magnânimo século XX. O escritor consegue pôr três gerações de cinco famílias diferentes, de vários países, a cruzarem-se entre si ao longo dos três livros e a terem papéis decisivos nos momentos mais marcantes da História Contemporânea. Ler cada uma destas obras é ficar a conhecer em detalhe o nosso passado, o nosso caminho recente, através da ficção.

Devia ser obrigatória esta trilogia em todas as escolas. Deviam ser atribuídos a Ken Follett todos os prémios. Calculo que o tempo ainda lhe há-de fazer justiça e, eventualmente, tal venha a acontecer.

Eu chorei, aos soluços, por ter que me despedir de todas aquelas personagens marcantes, as fictícias e as reais. Chorei por abandonar uma história que me acompanhou ao longo dos últimos três anos. Mas chorei sobretudo, porque desceu em mim, com uma consciência que eu nunca tinha alcançado antes, a magnitude dos eventos que eu tive a sorte de não ter presenciado.

Chorei porque me apercebi da sorte que tenho em viver em liberdade, em democracia, e sobretudo em paz, com a minha família e os meus amigos, sãos e salvos ao meu lado, num país que reconhece os direitos humanos, onde posso lutar pelos meus sonhos sem medo de censuras ou polícias secretas e dizer o que penso sem que isso me custe a vida.

Ken Follett tornou-me ainda mais reconhecida, ainda mais agradecida, aos pais e avós deste mundo que viveram episódios que nem nos passa pela cabeça. Esta trilogia deu-me também mais vontade de honrar todas as liberdades que hoje possuo e que tenho como adquiridas. E cada uma das obras cimentou em mim uma certeza que sempre tive: ler um livro pode mudar vidas.

A Vânia tem Neurofibromatose (tipo II)

Estávamos no Lux. Tínhamos ido as duas sair à noite juntas, como fazíamos habitualmente. Foi em 2007. Eu tinha 23 anos. Ela 21. Dentro da discoteca, perdemo-nos uma da outra. Quando nos reencontrámos, assim que cheguei ao pé dela, ela desmaiou. Uma quebra de tensão, disse. Por causa do calor abrasador que se fazia sentir naquele final de verão. Mas eu não achei normal. Ela tinha desmaiado de olhos abertos. Foi assustador. Hoje acho que aquele foi o primeiro ataque epilético que a doença lhe provocou.

Insisti com a minha mãe para a levar ao médico. Para ver se estava mesmo tudo bem. Porque o desmaio tinha sido realmente estranho. Um pouco contra vontade, a Vânia foi à médica de família, que desvalorizou a situação. Ainda assim, por descargo de consciência, pediu-lhe uma TAC à cabeça. O médico que conduziu o exame bem tentou disfarçar a preocupação com que olhava para os resultados. Quando perguntámos o que se passava, a resposta dele foi “já ouviram falar de neurofibromatose?” Neuro-what? Não fazíamos a mínima ideia.

Fomos ao Doutor Google pesquisar. E quanto mais víamos, menos sabíamos. Só uma certeza: era tudo demasiado terrível. A minha irmã fez mais uns quantos exames – enquanto o nervosismo nos corroía por dentro, – e o diagnóstico acabou por se confirmar. Tinha neurofibromatose, uma doença genética, rara (a tipologia dela atinge uma a cada 50 mil pessoas), sem cura, que afeta o sistema nervoso, que desenvolve pequenos tumores benignos que podem afetar o funcionamento dos outros órgãos. A Vânia tinha o tipo II da doença, o significava que os tumores dela se localizavam na espinha dorsal e na cabeça.

Portanto, aos vinte e poucos anos, a minha irmã – uma miúda gira, normalíssima, cheia de pinta, cheia de personalidade, cheia de amigos, com os namorados mais giros, cheia de vida – descobriu que tinha tumores no cérebro e ao longo das costas. E que médico nenhum lhe sabia dizer como seria o seu futuro. Foi arrasador.

A primeira coisa a fazer foi arranjar um bom médico. O melhor dos melhores. A Vânia teve de mudar radicalmente o seu estilo de vida. Deixou de beber álcool, deixou de fumar, passou a ter cuidado com o que comia, com os cafés e com tudo o que pudesse estimular o seu organismo a produzir mais tumores.

Depois, através do médico, chegámos a uma terapêutica relativamente recente, que consistia em fazer uma cirurgia não invasiva, emitindo raios laser para a sua cabeça, de forma a esterilizar os tumores existentes e impedir que crescessem e causassem problemas. O tratamento foi feito num dos lados do cérebro, em Madrid, num centro que contava com algum sucesso em doenças do género. Correu lindamente.

Dois anos depois, já em 2010 – com a minha irmã a levar a sua vida de forma tranquila, e mais saudável – estava na altura de atacar o outro lado. O médico informou-nos, entretanto, que a terapia dos raios laser também já estava a ser feita em Portugal. Decidimos então ficar por Lisboa. Só que, desta vez, correu mal. A radiação foi exagerada e afetou-lhe a audição. Após a cirurgia a Vânia queixava-se de um forte zumbido. E depois disso, silêncio absoluto. Nunca mais foi capaz de ouvir desse ouvido.

Acho que cada pessoa lida à sua maneira com os desafios e as dificuldades da vida. A minha irmã sempre se fez forte, nunca se queixa, nunca dá parte de fraca. Mas era frustrante vê-la tentar acompanhar as conversas nos jantares de grupo, ou a pedir às pessoas para repetirem o que diziam uma quantidade absurda de vezes. Foi preciso muita psicologia para a convencer a pôr um aparelho auditivo no ouvido bom, para potenciar a sua audição. Ela não queria. Era como assumir a sua fraqueza.

A função seguinte a ser afetada foi o equilíbrio que, de repente, passou a ser muito precário. Precisava constantemente de se segurar para não cair. Passou a evitar escadas sem corrimão e zonas íngremes. Saltos altos? Nunca mais. Depois foi o rosto. Com o passar dos anos, a sua fisionomia começou a alterar-se ligeiramente, sobretudo na zona da boca e dos olhos. Ao mesmo tempo, de vez em quando, sofria dores de cabeça fortes, provocadas por nevralgias internas.

A seguir às cirurgias a laser, os tumores estiveram um bom par de anos estagnados. Mas depois, começaram a evoluir. O médico dela sempre foi bastante conservador. Sempre nos disse que só a operaria caso não houvesse alternativa. Um dia deixou de haver. Os tumores da Vânia podiam estar prestes a afetar qualquer função vital. Em janeiro de 2016 foi submetida à sua primeira operação de cabeça aberta.

A ansiedade que uma cirurgia deste porte nos provoca é avassaladora. Mesmo confiando que ela estava em boas mãos. Foram momentos de muita angústia. Eventualmente, tudo correu bem. E no espaço de um mês a Vânia já estava relativamente recuperada. Só que o crescimento dos tumores também lhe foi afetando a audição. E o ouvido que ainda ouvia foi deixando de ouvir.

Eu sei que há pessoas surdas que têm uma vida normalíssima. Que fazem praticamente tudo o que uma pessoa ouvinte faz. Mas acredito que essa realidade é mais plausível quando essa surdez vem de nascença ou acontece numa fase mais precoce. Para uma miúda na casa dos vinte, na flor da idade, ir perdendo a audição de forma tão acentuada, mas progressiva, foi como se lhe fossem acrescentando camadas de distanciamento da realidade. Foi como se lhe construíssem um muro na comunicação com o mundo. E, aos poucos, a minha irmã foi-se fechando nela mesma.

Ela que era a pessoa mais dócil, tornou-se um pouco dura, meio sarcástica, menos crente. Afastou-se da maioria dos amigos, afastou-se dos programas sociais, refugiou-se no seu núcleo familiar, no trabalho, na sua rotina do dia-a-dia. Nós bem que tentámos combater esse afastamento. Eu passei a ser aquela convidada chata que pergunta sempre se pode levar a irmã para todas as festas, jantares e eventos. E tentámos ajudá-la a saber comunicar novamente com os outros.

Assim, depois de muita insistência, quebrámos uma nova barreira. No final de 2017, fomos aprender – ela, eu e a nossa mãe – Língua Gestual Portuguesa. Tivemos um ano de aulas, foi pouquinho, para já, mas o suficiente. Havemos de continuar. E foi mesmo a tempo, porque ao longo desse ano a audição dela piorou drasticamente, até se ter tornado quase nula. Desde então os gestos têm sido fulcrais na nossa comunicação. E foi maravilhoso ter visto o interesse que isso gerou à nossa volta. Temos amigos, tios e primos a aprender – pelo menos o básico, – para melhor falar com ela.

Em 2018 – no ano passado, – o médico disse-lhe que precisava de a operar outra vez. Tinha outro tumor demasiado grande na cabeça que o estava a preocupar. A cirurgia foi adiada por diversas vezes ao longo do ano. Até que num dia, em outubro, a chamaram ao hospital. A operação ia acontecer no dia seguinte. Nem deu bem para nos prepararmos mentalmente. Mas com o passar dos anos, fomos aprendendo a relativizar e a confiar.

A cirurgia demorou várias horas e quando terminou disseram-nos que tudo tinha corrido de acordo com o esperado. Agora era preciso ver a reação do corpo da Vânia. E o inesperado surgiu depois. A minha irmã demorou mais de um dia a reagir. E depois esteve uma semana em que se limitou a abrir e a fechar os olhos, sem que nós percebêssemos se nos reconhecia sequer. Outra semana até lentamente ir comunicando, por escrito, com rabiscos muito básicos. E mais outra até conseguir articular a primeira palavra.

Foi mais de um mês de sofrimento atroz. Seguramente os dias mais difíceis da minha vida, em que cheguei a duvidar se alguma vez recuperaria a minha irmã. Os médicos a fazerem-nos cenários negros, tanto para o presente como para o futuro. Vi os meus pais destruídos pela dor. Estávamos todos quebrados por dentro.

A Vânia veio para casa, mas a nossa vida mudou drasticamente. Deixou de trabalhar, deixou de morar sozinha. Perdeu algum do seu discernimento. E ultimamente começou a ter ataques epiléticos. Dois, na verdade. Que esperamos muito que tenham sido episódios isolados.

E é este o ponto em que nos encontramos agora. A tentar enquadrar uma nova realidade nas nossas vidas. Os meus pais – super guerreiros – continuam a lutar desenfreadamente por ela. Todos nós. Ninguém perdeu a esperança. Já nos disseram que a medicina convencional não pode fazer mais nada por ela. Por isso, estamos nas alternativas, cheios de fé. Não só num melhoramento, como numa cura total.

Neste momento, a minha irmã faz terapia da fala, fisioterapia, terapia ocupacional e psicologia neurológica. É seguida numa clínica em Barcelona, especializada em cannabis medicinal. Tem sessões de reiki. E andamos a correr meio mundo para saber como lhe podemos restituir a audição (ou parte dela). E sim, aos poucos vai melhorando. Há dias que parece a Vânia do pré-cirurgia. Cada vez mais dias.

Esta é a nossa história. A história da mudança dramática que as nossas vidas sofreram num espaço de doze anos. Partilho-a hoje convosco por várias razões. A primeira é para mostrar que nunca sabemos o que a vida tem destinado para nós. De verdade. E a única forma de apreciarmos o que realmente temos, é agradecendo. Todos os dias.

Depois, partilho a nossa história num apelo à empatia. Não por nós. Mas entre todos nós. Há muita gente que desconhece esta nossa realidade. Da mesma forma que nós desconhecemos a realidade de muita gente que nos rodeia. Por isso, temos de ser gentis uns para os outros. Não sabemos que cruz cada um carrega.

Por último, partilho para aumentar a consciencialização para a Neurofibromatose, neste dia dedicado a esta causa. Para que mais gente conheça esta doença rara, que se manifesta de forma diferente, de pessoa para pessoa, e que o conhecimento entre todos seja partilhado, numa caminhada em direção à cura.

Vou votar no Paulo Sande (e vocês deviam todos fazer o mesmo)

Para começar vou abreviar o título: vou votar e vocês deviam todos fazer o mesmo! As eleições europeias são as que menos atenção merecem dos cidadãos (em Portugal e no resto dos Estados-membros), o que é pena – já que são tão ou mais importantes que as outras todas.

Os números altíssimos de abstenção mostram que a União Europeia, apesar de ser uma ideia incrível – com uma concretização, às vezes, não tão incrível assim, – tem imensa dificuldade em chegar as suas mensagens às pessoas.

Não vou estar a alongar-me sobre como funciona o processo de decisão da UE. A coisa é complexa, admito. Posso um dia, se quiserem, fazê-lo. Hoje quero só dizer que o Parlamento Europeu é o único órgão que conta com a mão do povo, onde cada eurodeputado é eleito diretamente pelos cidadãos do seu país.

E se acham Bruxelas aborrecida e nada a ver convosco, vou só recordar-vos da posição progressista que a Europa tem no mundo, ao estar sempre na vanguarda da defesa dos direitos humanos (vejam o caso dos refugiados), da proteção ambiental (com uma meta super ambiciosa de descarbonização), da paz (ganhou um Nobel há uns anos, lembram-se?) e de uma mão cheia de outras coisas. (Se quiserem saber uma carrada de razões pelas quais a União Europeia é incrível, sigam este link). Mas pronto, eu sou uma europeísta assumida.

Passando à parte do Paulo Sande. Tenho, primeiro, que fazer uma declaração de interesse. Eu conheço o Paulo. Foi meu chefe durante os seis meses em que estive a trabalhar no gabinete em Lisboa do Parlamento Europeu, com uma bolsa de estágio. E posso dizer-vos que foi, até hoje, o melhor chefe que tive (perdoem-me todos os outros). Inteligente, carismático, preocupado. E para além deste lado humano, é uma pessoa com um conhecimento enorme sobre o funcionamento complexo da UE. Quando soube que se ia candidatar a eurodeputado, fiquei tão entusiasmada que só tive vontade de largar tudo e ir ajudá-lo na campanha. É que acredito mesmo que ele fará um bom trabalho.

Não quer isto dizer que haja algo de errado com os outros candidatos. Eu, que acompanho com alguma proximidade as questões europeias, posso dizer que até temos alguns eurodeputados de qualidade: motivados, empenhados, com trabalho feito e provas dadas. Mas tenho a certeza que o Paulo será o melhor entre os melhores.

Em relação a programa e perfil, a postura dele é liberal, europeísta, de direita. Mais académico que político (aliás, passa completamente à margem de todas as tricas políticas que nos habituámos a ver). E um super cool (não é por andar em campanha que deixa de ficar acordado de madrugada para ver Game of Trones). As propostas dele vão no sentido de tornar mais transparente a ligação entre Portugal e a União Europeia (com sugestões bem definidas, vejam aqui). E depois, claro, em termos mais gerais, segue as linhas de orientação do Aliança, o partido pela qual se candidata (leiam aqui as ideias do Aliança).

É por isto que dia 26 não tenho a mínima dúvida de onde vou pôr a minha cruz. Gostava que todos vocês também votassem no Aliança e no Paulo Sande. Mas se não se identificarem, vão pesquisar os programas dos outros partidos (e não se deixem levar por campanhas eleitorais ou declarações vazias e demagogas). O importante mesmo mesmo é que votem.

(Fotografia: José Sena Goulão / Lusa)